Há alguns anos um professor em uma faculdade realizou um comentário bastante propício naquele momento, disse o seguinte: - Enquanto as crianças ricas do norte (referindo-se aos Estados Unidos e a Europa) seguem consumindo cocaína, as crianças do sul continuam produzindo-a. Seu argumento se baseou na lei da demanda e da oferta.
Evidentemente na atualidade esse comentário já não tem a mesma validade, seria preciso agregar-lhe que as crianças pobres do sul também produzem para as crianças pobres do sul. Basta visitar algumas cidades latino-americanas para dar-nos conta dos efeitos que o consumo de drogas está provocando. Salvador/BA é um bom exemplo do encruado que está a situação no sul.
No entanto, Salvador/BA não é o único lugar onde se pode observar este problema. A situação não é muito diferente no Caribe ou na América Central. Alguns países se transformaram em zonas estratégicas para o tráfico de drogas e amparo para organizações criminais dedicadas à prostituição, contrabando de imigrantes, falsificação, desvio de mercadorias e outras atividades aproveitando a carência de controle por parte das autoridades, materializada pela ausência do Estado.
Há alguns anos o problema das drogas ilegais só era uma questão tratada pelos especialistas em saúde. Também se discutia em debates universitários e em alguns organismos estatais dedicados à luta contra o crime organizado. Hoje em dia a situação mudou, porque o narcotráfico representa uma séria ameaça à segurança nacional, considerando não apenas o campo delitivo, já que afeta todos os setores: político, econômico, social e cultural de qualquer Estado.
Interessante como este tema passou a ser analisado apenas como crianças ricas consumidoras e crianças pobres produtores. Transformando o assunto em um tema político e inclusive eleitoral. Basta lembrar as afirmações que fez, no início do mês passado, o candidato do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), José Serra: "os Senhores acham que a Bolívia vai exportar 90% da cocaína consumida no Brasil sem que seja cúmplice o Governo?". Serra acusou a Bolívia de ser responsável pela cocaína exportada ao Brasil, e lembrou que esta é a base para a produção de crack. Por sua vez, a candidata do Partido dos Trabalhadores (PT), Dilma Rousseff, aproveitou para afirmar que ditas acusações não têm provas e que "são indignas de um estadista", lembrando que não é possível culpar um Governo pela droga que sai de um país.
Se nos detivermos a pensar quem dos candidatos tem razão, possivelmente a resposta variaria dependendo de nossa ideologia ou de nosso candidato favorito. Mas deveríamos ir um passo mais adiante e sermos conscientes da ampliação do narcotráfico que afeta a todos. Deveria ser tratado não somente como um tema eleitoral, mas também político, que requer o envolvimento de todos os agentes sociais, forças de segurança e políticas de Estado. Se deixarmos que o narcotráfico se transforme somente em um tema eleitoral, muito em breve todos estaremos vivendo em "Cidades de Deus".
Fran Espinoza é Politologo, graduado na Universidade Rafael Landivar (Guatemala), Mestrado em Estudos Internacionais de Paz, Conflito e Desenvolvimento, Universidade Jaume I, Castellón (Espanya), doutorando em Estudos Internacionais e Interculturais, Universidade de Deusto, Vizcaya, Espanha. Contatos: espinoza.fran@gmail.com
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